O fim da Ciência?

Ronaldo Rogério de Freitas Mourão


A idéia do fim da ciência, defendida por John Horgan, reflete o perigo de uma ciência dogmática. Depois de lutar contra todas as espécies de dogmas religiosos, políticos e filosóficos, parte da comunidade científica acabou dominada pela tendência, própria da mente humana, de transformar em dogma tudo aquilo que acredita constituir o suprassumo do saber ou seja capaz de vencer os obstáculos de natureza religiosa. Ao serem impostas, as ideologias, em geral, retardam o progresso das ciências, até serem revistas ou rejeitadas.

Mas desta ameaça - o dogmatismo - não escaparam os mais notáveis cientistas em todas as épocas: os médicos do século XVIII levaram muito tempo para se livrar da teoria flogística; os biólogos do século XIX tiveram dificuldades para se desfazer da teoria da geração espontânea; e os mais notáveis físicos do século XX foram contrários às proposições da relatividade einsteiniana. O grande Ernest Mach escreveu que não iria aderir à idéia do átomo e "outras teorias do mesmo gênero".

Muitas das idéias aceitas na atualidade como definitivas serão, sem dúvida, parcial ou totalmente substituídas por outras. Na ciência nada é absoluto. A própria verdade é relativa.

A incapacidade de aceitar a idéia da imprevisibilidade científica - inegavelmente perturbadora, com a sua evolução incontrolável e a permanente revisão dos seus paradigmas - cria um inconformável espírito de reação às inovações e ao revisionismo, mesmo entre os cientistas mais cultos.

A incapacidade eterna de admitir idéias novas pode conduzir, o leigo a uma seria dúvida sobre o valor da ciência, e aos mais sábios, os grandes cientistas, os pesquisadores mais competentes, à indiferença, ao sarcasmo, e mesmo às reações que vão da admiração à tolice.

Como todos os dias uma nova notícia altera a anterior, é comum escutar do povo que os cientistas nada sabem, como se eles (os cientistas) tivessem esta pretensão; mal sabem que a maioria dos verdadeiros homens de ciência se consideram eternos estudantes à procura de uma solução para os enigmas que nos cercam. Mas nem todos são modestos no seu modo de agir; alguns são prepotentes.

Não faz muitos anos, em plena metade do século XX, em dos países mais liberais do mundo e na comunidade que por princípio deveria ser a mais aberta do mundo, a dos cientistas, assistiu-se à ação e aos efeitos do dogmatismo científico.

Para exemplificar tal perigo, citaremos dois célebres casos: a descoberta dos genes "saltadores", identificados por uma pesquisadora norte-americana sem grandes títulos e sem grande recursos - Bárbara Mc Clintock (1902- ) - e a hipótese da secreção de hormônios pelo próprio cérebro teoria do inglês Geoffrey Harris, no início dos anos 1950.

A idéia de Mc Clintock, de que os genes não se exprimem nas descendências de uma maneira rigorosamente determinada, para não dizer determinista, irritou furiosamente os geneticistas norte-americanos dos anos 1930 e 1940. A teoria se firmou graças à teimosia excepcional de Mc Clintock, mulher modesta, com ar de uma doçura persistente, que, durante quarenta anos, prosseguiu nas suas pesquisas apesar do escárnio dos seus colegas mais famosos. Só no início dos anos 1980, quando muitos dos seus adversários já eram mortos, Bárbara viu seu trabalho reconhecido. Em 1983, ganhou o prêmio Nobel de Medicina.

O mesmo ocorreu com a descoberta dos hormônios cerebrais - as endorfinas - pelo norte-americano Hughes e o francês Guillermin, em 1975, cuja idéia era rejeitada violentamente pelo maior especialista inglês em hormônios: Sir Solly Zuckermann. Dois grandes pesquisadores independentes, Guillermin e o seu colega polonês Andrew Schally, lutaram obstinadamente contra as idéias predominantes, conseguindo separar outros hormônios cerebrais previstos por Harris. Em 1978, os dois ganharam o prêmio Nobel de medicina. Convém assinalar que Guillermin teve um artigo - sobre a descoberta dos hormônios - submetido à respeitável revista Science, e que foi recusado sob a alegação de que era fruto de sua imaginação desenfreada.

Toda idéia, toda hipótese, toda descoberta reflete uma parte da realidade: é impossível anunciar uma descoberta em termos definitivos. Daí o perigo do dogmatismo científico. Ao descobrir as leis da gravitação universal, Newton não podia saber que dois séculos mais tarde seriam descobertos objetos celestes cuja dinâmica é incompatível com suas idéias. Assim também ocorreu em 1937: o russo Dubinine, ao descobrir a mutação natural, jamais imaginou que esse fenômeno fosse muito mais complexo do que supusera. De fato, a descoberta posterior dos segmentos do DNA, os introns, pelo norte-americano Spencer, deixou evidente que a concepção tradicional, que considerava a mutação como um fenômeno de exceção não era verdadeira. As mutações ocorrem permanentemente, até mesmo nos animais superiores.

Com o advento da conquista espacial, o cenário da astronomia atual encontra-se em permanente alteração. Principalmente depois que as sondas espaciais e os observatórios orbitais, além de detectarem novos objetos celestes, começaram a difundir resultados contrários aos paradigmas preestabelecidos no campo da cosmologia e da evolução estelar, como, por exemplo, a descoberta que algumas estrelas seriam mais velhas do que o próprio universo: enigma que se opõe ao atual panorama da história do cosmo e, em particular, à do big-bang, hipótese mais aceita para explicar a origem do universo.

Estes relatos têm por objetivo mostrar que uma hipótese ou uma descoberta não são jamais uma aquisição total do saber, mas sempre um fragmento do saber que impõe uma reorganização do saber anterior, com alteração do próprio paradigma anterior que permitiu que a ciência o compreendesse e aceitasse.

Só a repetição sucessiva faz com que uma lei seja considerada uma descoberta e só a análise sistemática pode permitir classificar um objeto como uma descoberta.

A história da ciência é uma sucessão de paradigmas. O prímeiro paradigma surgiu com a revolução copernicana, que permitia ao homem libertar-se do geocentrismo em que vivia. O homem deixou de ser o centro do universo. O segundo foi a revolução cartesiana que tornou o cosmos acessível à razão. A capacidade de análise e de lógica fez com que o homem assumisse o domínio da ciência e da técnica, e se transformasse no arquiteto de idéias do mundo no futuro. O terceiro foi a revolução darwiniana que reconduziu o homem à natureza; liberou-o do antropocentrismo. O quarto é a revolução sistêmica que está permitindo reintegrar os conhecimentos como um todo coerente. Ela reconduziu o homem à sua posição e ao seu papel no universo. Se ainda estamos vivendo este paradigma, como então imaginar o fim da ciência? O quinto paradigma - a revolução simbionômica - está surgindo: trata-se de uma síntese analítica e sistêmica das ciências da complexidade e da teoria dos caos.

As ciências da complexidade devem desembocar numa visão unificada da natureza. A evolução simbionômica - teoria geral da auto-organização e da dinâmica dos sistemas complexos - permitirá traçar vias possíveis de evolução das sociedades humanas em direção ao nascimento do cibionte e do homem simbiótico.

As evoluções analítica, sistêmica e caótica se fundirão em uma interpretação racional e sensível do mundo. Novas indústrias irão surgir: tais como as bioindústrias e as ecoindústrias dentro de um contexto de indústrias de informação. Novas disciplinas irão surgir: biótica, neobiologia, macrobiologia, ciências das redes, ciências cognitivas e bioinformática. Estes serão os instrumentos metodológicos e técnicos da revolução do terceiro milênio.

Diante deste novo panorama que irá surgir com o homem simbiótico, falar em fim de ciência parece-me uma visão equivocada dos que estão dominados pela idéia de que vivemos "no melhor dos mundos", onde a ciência já teria atingido o seu limite máximo de perfeição: uma visão antropomórfica, antropocêntrica e dogmática que devemos condenar, pois ela poderá nos conduzir a uma segunda "idade das trevas".


Glossário


Biótica. Ciência que resulta da associação de biologia e da informática. Aplica-se principalmente à criação das interconexões entre o cérebro humano e os computadores.

Cibionte: Macro-organismo planetário em desenvolvimento na atualidade. Superorganizado hídrido, biológico, mecânico e eletrônico, incluindo os homens, as máquinas, as redes, as sociedades; macrocélula viva planetária, ecossistema social, ser vivo macroscópio.

Macrobiologia: Nova biologia dos macro-organismos (q.v.).

Macro-organismo: Organismo vivo composto de um grande número de agentes individuais (seres vivos e máquinas e/ou robôs).

Neobiologia: Nova disciplina científica consagrada ao estudo da vida artificial.

Simbionomia: Teoria unificada de autorganização e da dinâmica dos sistemas complexos. A evolução simbionômica compreende o desenvolvimento generalizado em direção ao aumento da complexidade e da organização que se estende ao conjunto da matéria, da vida, do homem e das sociedades.

Sistêmica: Ciência que permite organizar o conhecimentos com vista uma grande eficiência de ação. A sistêmica se relaciona ao estudo dos sistemas e de sua evolução no tempo.

 

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