Marte próximo à Terra


Ronaldo Rogério de Freitas Mourão

A melhor época para observar Marte é quando este planeta e a Terra, além de se encontrarem do mesmo lado do Sol, atingem a menor distância possível entre si. Isto ocorre quando os três astros se encontram alinhados e a Terra ocupa a oposição central. Neste caso, visto do nosso planeta, Marte e o Sol estariam em posições opostas no espaço; razão pela qual esta configuração planetária é denominada oposição. Diz-se que Marte está em oposição ao Sol. Nessa época, o planeta nasce, em geral, às 18 horas, quando o Sol se põe; passa mais próximo do zênite à noite, deitando-se às 6 horas, quando o Sol está nascendo.

Nem todas as oposições são igualmente favoráveis, em virtude de as órbitas dos planetas não serem circulares e sim elípticas. As posições mais favoráveis - a distância Terra-Marte é quase mínima - ocorrem quando Marte se encontra no periélio, ou em suas vizinhanças. Tais oposições, conhecidas como oposições periélicas, acontecem, em geral, nos meses de agosto e setembro, quando o planeta se encontra próximo do seu periélio. Por outro lado, as oposições que ocorrem nos meses de fevereiro e março, nas vizinhanças do afélio de Marte, são designadas por oposições afélicas.

Marte esteve muito perto da Terra nas oposições periélicas de setembro de 1956 (56 milhões de km), de agosto de 1971 (57 milhões de km), esteve muito próximo em julho de 1986 (60 milhões de km). Em 2003, o planeta atingirá em fins de agosto uma de suas maiores aproximações da Terra, quando sua distância será de 55,5 milhões de km.

A atual oposição, em 17 de março, não é das mais notáveis, mas esta aproximação de Marte constitui, para o observador interessado no céu, uma ocasião única para apreciar o planeta a olho nu e com instrumento modesto, pois as oposições só ocorrem de dois em dois anos. Devemos salientar que nestas épocas Marte será um dos mais interessantes objetos celestes visíveis a olho nu, em virtude do seu relativamente rápido deslocamento aparente entre as estrelas bem como pela sua coloração acentuadamente avermelhada, razão pela qual foi associado a Marte, deus da guerra entre os romanos. Apesar de constituir um dos mais belos espetáculos visto a olho nu, telescopicamente, Marte é um planeta muito decepcionante para o leigo, pouco habituado a observação astronômica. De fato, a sua imagem num pequeno instrumento não é jamais espetacular. Assim, com um telescópio de 50 a 60 milímetros de abertura e um aumento de 100 vezes vai aparecer como um pequeno disco uniformemente colorido de ocre rosado. Nas condições mais favoráveis poder-se-á distinguir, sob o aspecto de um ponto brilhante, a calota polar. Esta calota branca devida ao gelo que a compõe será um acidente de observação notável em contraste com a colaboração rosa do resto da superfície proveniente da presença de uma fina camada ferruginosa sobre o planeta. Com um instrumento de 75 milímetros de abertura e um aumento de 150 vezes, será possível detectar algumas manchas em sua superfície. As observações só começam a se tornar atraentes com um instrumento de 80 milímetros de abertura e um aumento de 200 vezes, quando se começará a observar algumas configurações da superfície marciana, dentre elas, Systis Planitia - a mais notável mancha escura, de forma triangular - situada na região equatorial do planeta.

Com telescópios a 150 milímetros, poderão ser realizadas algumas observações mais sérias sobre as variações da extensão da calota polar, alterações de tonalidade e aspectos das diferentes marcas superficiais, bem como acompanhar a lenta rotação do planeta de uma noite para a outra. Como a rotação de Marte é um pouco mais longa que a terrestre, só depois de 4 dias de observações sucessivas é que se poderá detectar o deslocamento das configurações marcianas. No fim de 40 dias, o planeta inteiro terá sido observado, se tivermos o cuidado de obervá-lo sempre à mesma hora. Apesar disso, convém contempá-lo mesmo a olho nu, tendo em vista a sua importância científica, literária e social do planeta Marte, sem dúvida o segundo astro mais conhecido do leigo depois do cometa Halley, em virtude das hipóteses científicas levantadas, no fins do século XIX e início deste, quanto à provável existência dos marcianos, o que inspirou inúmeras obras de ficção científica e mais recentemente depois da descoberta de um meteorito de origem marciana, com microfósseis que sugerem que a vida já existiu em sua superfície.

Publicado no Jornal do Commercio, Caderno Atualidades, 9 e 10 de março de 1997

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