O terceiro milênio já começou

Ronaldo Rogério de Freitas Mourão

Toda contagem de tempo começa de zero. Entretanto, um sistema sui generis de contagem foi estabelecido para o início da era cristã, onde o algarismo 1 significa o ano que da início à essa era. Realmente, em 525, quando Dionísio, o Pequeno, propôs que a era cristã fosse contada a partir do nascimento de Cristo, a idéia de zero era desconhecida. Na verdade, a ausência do ano zero explicar-se pela razão de que a noção de zero só surgiu no século 12, com o célebre matemático e astrônomo indiano Bhaskara (1114-1185). Isso tem provocado muitas confusões, em particular na contagem dos anos anteriores à era cristã.

Para eliminá-las foi que o astrônomo francês Dominique Cassini (1625-1712), introduziu um processo diferente de numeração, que passou a ser adotado universalmente pelos astrônomos e pelos cronologistas. Esse processo, além de facilitar enormemente os cálculos, evita qualquer risco de erro. Na contagem comum ou histórica, o ano que precede o nascimento de Cristo é o ano 1 a.C. (antes de Cristo), enquanto na dos cronologistas e astrônomos esse é o ano 0 (zero). O ano que precede esse, ou seja, o ano 2 a.C., à maneira dos cronistas, corresponde ao ano -1 dos astrônomos e assim sucessivamente para os outros anos anteriores ao nascimento de Cristo. Após o nascimento de Cristo, os dois modos de contar são idênticos. Assim damos a seguir a cronologia astronômica seguida da cronologia histórica entre parênteses: 2 (ano 2 d.C); 1 (ano 1 d.C.); 0 (ano 1 a.C.); -1 (ano 2 a.C.); -2 (ano 3 a.C.);..... -1499 (ano 1500 a.C.).

O sistema dos astrônomos está dentro da lógica e das necessidades da álgebra. As duas séries de anos antes e depois da nossa era só entram corretamente nos cálculos se existe para separá-los um ano zero. Sem a presença do zero, as contas se tornam menos simples, sendo mais fácil errar. Assim, ao calcular o 2º milênio do grande poeta latino Virgílio, que morreu em 270 a.C., os cronologistas foram induzidos a um erro. Com efeito, comemorou-se o 2º milênio do seu nascimento em 1930, cometendo-se um engano de um ano por antecipação. Se fosse considerado o sistema de contagem proposto por Cassini, e tendo em vista que o ano de morte nesse caso seria indicado pelo algarismo -269, uma simples soma (269 + 1931) conduziria à data exata.

Entre outras vantagens, a numeração usada pelos astrônomos restabelece o critério de serem os anos bissextos antes de Cristo sempre divisíveis por 4. Assim, na série astronômica, permanece a divisibilidade por quatro, de modo a que os anos bissextos antes da era cristã serão 0, -4, -8, -12.

Pela convenção atual, defendida pelos astrônomos francêses François Arago (1786-1853) e Camille Flammarion (1842-1925), no fim do ano 100 terminou o primeiro século. No fim do ano 1900, terminou o século 19. O século 20, que começou em 1 de janeiro de 1901, terminará em 31 de dezembro de 2000. Assim, o século 21 começará em 1 de janeiro de 2001.

Foi esta a razão pela qual o escritor de ficção científica inglês Arthur Clarke (1917- ), ao escrever a obra que marca uma nova etapa da conquista espacial, resolveu denominá-la de 2001 - Uma odisséia no Espaço.

 

 

O Terceiro Milênio já começou

 

Na verdade, já estamos no Terceiro Milênio. Os teólogos e estudiosos da Bíblia sabem que Dionísio o Pequeno no século VI, ao elaborar o calendário, equivocou-se em cerca de seis anos com relação à data de nascimento de Jesus. Em conseqüência, segundo os historiadores agnosticos, ateus e crentes, já estamos no Terceiro Milênio. O ano de 1997 pode ser o ano 2003 ou 2004. Na realidade, o ano zero (ou ano 1 a.C.) não corresponde ao do nascimento de Jesus. Como não existe, nos Evangelhos, uma data precisa para o nascimento de Cristo, estudiosos da Bíblia são obrigados a tomar como referência mais concreta e histórica o "tempo de Herodes" ou o "tempo do recenseamento ordenado por Augusto".

Convém recordar que, antes de Dionísio o Pequeno ter estabelecido a data do nascimento de Cristo como o início da contagem da era cristã, a cronologia baseava-se em outros marcos iniciais para contar os anos: os romanos usavam a fundação de Roma, os gregos, as Olimpíadas, enquanto os judeus adotavam como o ano zero o da criação do mundo.

Pela tradição, Jesus nasceu no ano 1 da nossa era, pois o seu nascimento é o evento que marcou o início da era cristã. Na realidade a verdade é outra. Em 525 d.C., quando Dionísio o Pequeno fixou o nascimento de Cristo em 25 de dezembro do ano 754 ab urbe condita (depois da fundação de Roma), efetuou-se um erro de cálculo da ordem de pelo menos cinco anos. Ele não havia considerado nem o zero (algarismo que seria introduzido na Índia no século IX a.C.) nem os quatro anos que o Imperador Augusto reinou com o seu próprio nome de batismo, Otávio.

Por outro lado, com auxílio de acontecimentos históricos citados na Bíblia, poderemos determinar com maior precisão os prováveis anos nos quais teria nascido Jesus. De início, segundo São Mateus, sabe-se que Jesus nasceu durante o reinado de Herodes, que faleceu no ano -3 (ou 4 a.C.), talvez nos meses de abril ou maio. Essa última conclusão prende-se ao fato de a morte de Herodes ter ocorrido antes da Páscoa dos judeus, e ter sido precedida por um eclipse da Lua. Ora, como o único eclipse lunar visível em Jericó foi o da noite de 12 para o dia 13 de março do ano -3 (ou 4 a.C.), como foi mencionado por Flavius Josephus, supõe-se que a morte de Herodes ocorreu provavelmente no mês que se seguiu ao eclipse. Em síntese: tudo indica que Herodes morreu entre 13 de março e 11 de abril, pois foi nesse último dia que se iniciou a Páscoa dos judeus.

Uma outra ocorrência que tem auxiliado os historiadores, foi o massacre dos inocentes, quando todas as crianças de menos de dois anos foram sacrificadas por ordem de Herodes, que se baseou nas informações dos Magos para enviar os seus soldados a Belém, a fim de matar o novo Messias que ele tanto temia. Por esse fato se concluiu que Jesus, na época, deveria ter menos de dois anos. Seria conveniente lembrar, por outro lado, que essa data pode corresponder a concepção e não ao nascimento, pois entre os orientais era tradição iniciar a contagem da idade a partir daquele instante.

Um outro ponto de referência na fixação da data de nascimento de Jesus foi a época do recenseamento ordenado pelo Imperador Augusto, que foi executado por Quirino, governador da Síria. Se aceitamos o termo recenseamento como census, isto é, como um inventário de população, a data correspondente será -7 ou -6 (ou 8 ou 7 a.C.). Todavia se tomarmos, como o fazem alguns autores, esse termo no sentido de cens, ou seja, de imposto, que deve ter sido posterior de um a dois anos ao citado inventário, é aceitável supor que o mesmo ocorreu entre os anos -4 ou -3, ou seja, 5 a 4 anos a.C. Considerando todos esses elementos, chegamos à conclusão de que a data de nascimento de Jesus deve situar-se entre os anos -4 a -6 (ou 5 a 7 a.C).

 

 

Em que dia do ano nasceu Cristo?

 

O Natal, em 25 de dezembro, começou a ser celebrado em todo o mundo como o dia do nascimento de Jesus depois do ano 336 d.C. Antes essa data aceita como solstício do inverno no hemisfério norte, estava associada a diversas festividades pagãs dentre elas, a saturnalia, em Roma, e os cultos solares, entre os germânicos e os celtas, tiveram de ser neutralizadas junto aos adeptos do cristianismo. A principal delas era a festa pagã do dies solis invicti natalis, ou seja, o dia do nascimento do Sol invicto. Sua comemoração coincidia com os meados das saturnálias - estação durante a qual os trabalhos cessavam. Nesse dia em que o Sol começava a se dirigir para o norte, as casas eram decoradas com árvores, presentes eram trocados entre os amigos, ceias e procissões eram efetuadas pelos povos pagãos em homenagem ao Sol, que voltava em direção à sua posição elevada, que ocorreria no verão. Como os primeiros cristãos ainda continuavam comemorando esse feriado, a Igreja decidiu, em 440 d.C., transformar tal cerimônia pagã numa festa cristã. O objetivo de Igreja foi cristianizar as festas pagãs realizadas neste dia, dentre elas a festa mitraica que celebrava o natalis invictis solis da religião persa, com a qual rivalizava o cristianismo nesta época. Assim, o dia 25 de dezembro passou a representar o dia do nascimento de Cristo.

No Oriente, ou melhor, na porção oriental do Império Romano, o nascimento de Jesus foi inicialmente celebrado em 6 de janeiro, data que estava associada a outra grande festa pagã. Comemorar o Natal nesta data, tinha como objetivo eliminar do calendário a cerimônia pagã que se realizava no templo de Kore, em Alexandria, e em algumas regiões da Arábia, quando se celebrava Kore, a virgem, que deu à luz Aion.

Em 194 d.C., Clemente de Alexandria propôs para o nascimento de Jesus a data de 19 de novembro do ano -2 (ou 3 a.C.), enquanto outros pretendiam tivesse ocorrido em 30 de maio ou 19/20 de abril. Mais tarde, em 214 d.C., Epifânio propôs o dia 20 de maio. Nessas propostas existem confusões entre a época da concepção e do nascimento. No entanto, todas elas parecem concordar com a velha tradição de que Cristo teria sido concebido na primavera e nascido em meados do inverno (essas estações referem-se ao Hemisfério Norte).

Segundo os relatos da Bíblia, o nascimento de Cristo pode ser determinado em função do de São João Batista. Assim Zacarias, o pai de João Batista, foi o sacerdote da travessia de Abia (Lucas 1.8) que teria servido no templo na sexta semana depois da Páscoa, semana anterior ao Pentecoste. Como todos os "sacerdotes" também serviram durante o Pentecoste, Zacarias teria deixado Jerusalém para sua casa no décimo segundo dia do mês do calendário israelita Sivan, ou seja, em 12 de junho do nosso calendário. Ora, como Isabel, sua esposa, concebeu seu filho depois do seu retorno (Lucas 1.24) conclui-se que João Batista deve ter nascido 280 dias mais tarde, ou seja, nas vizinhanças do dia 27 de março. Lucas (1.36) registrou ser Cristo seis meses mais jovem que João Batista, o que faz ter o nascimento de Cristo ocorrido em setembro seguinte, ou seja, no outono do ano -6 (ou 7 a.C.). A primitiva tradição cristã registrava que Jesus nasceu um dia depois de um Sabbath judeu, isto é, em um domingo. Crenças astrológicas tradicionais indicam, como dia mais provável, o sábado, dia 22 de agosto de -6 (ou 7 a.C.). Seria conveniente lembrar que no calendário judeu o dia começa ao pôr-do-Sol, de modo que se considerarmos a lenda de que Cristo nasceu depois do pôr-do-Sol, podemos aceitar que o seu nascimento ocorreu em 21 de agosto do ano -6 (ou 7 a.C.).

Em conseqüência deste grave erro histórico já estamos no Terceiro Milênio, em 2003 ou 2004. Ao contrário dos outros erros históricos, a retificação deste jamais será realizada, pois ela implicará em grandes alterações em todas os setores de vida contemporânea.

Publicado na Folha de S. Paulo, 2 de março de 1997

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