Os Cometas de Gregório de Matos

Ronaldo Rogério de Freitas Mourão

Há 360 anos, mais exatamente em 20 de dezembro de 1636 nasceu Gregório de Matos Guerra que foi batizado como João (o nome Gregório foi escolhido por ele mesmo). Como doutor em Leis por Coimbra, foi magistrado em Lisboa e advogado na Bahia, para onde teria voltado em 1681 ou 1682. Pelo desagrado que despertou sua poesia satírica, acabou degredado em Angola, de onde mais tarde retornaria ao Brasil. Em seu retorno fixou-se na cidade de Recife.

Em sua obra encontramos quatro poemas em que descreve a aparição de cometas. Em dois deles existem referências aos anos em que o cometa foi visto: 1688 e 1689. Numa primeira idéia poderíamos pensar que se trata do mesmo cometa, atribuindo-se a divergência entre as duas datas a um engano de transcrição. Na realidade, entretanto, em cada um desses anos foi visível, na Bahia, um cometa de brilho e cauda excepcionais, o que destrói completamente a possível afirmativa de que os poemas falam de um mesmo cometa.

O cometa de 1686, que está relacionado, segundo os escritos de Gregório de Matos, aos sebastianistas, foi descoberto em 15 de agosto daquele ano no Brasil. Além de ter aparecido com o brilho equivalente ao de uma estrela de primeira magnitude, possuía uma cauda de 18 graus, como observou o padre jesuita Richaud, na cidade do Pará (hoje Belém), entre os dias 7 e 15 de setembro. Na Alemanha, foi observado de 16 a 22 de setembro por Christoph Arnold (1650-1695) - "camponês inteligente na teoria e perito na prática de Astronomia", para usar a expressão de astrônomo francês Alexandre Guy Pingré (1711-1796) -, que na cidade de Sommerfeld, próximo à cidade de Leipzig, registrou-o como um astro de primeira magnitude e uma cauda de segunda magnitude. Em 18 e 19 de setembro, o astrônomo alemão Gottfried Kirch (1639-1710) descreveu-o com brilho e cor equivalente ao da estrela Delta do Leão, cuja magnitude é de 2,6. As últimas observações foram efetuadas em 22 de outubro. O astrônomo inglês Edmmund Halley calculou uma órbita para o cometa, embora a mais recente seja de autoria do astrônomo inglês John Russell Hind (1823-1895).

Tal cometa está descrito com muita propriedade por Gregório de Matos, que ironiza as crenças astrológicas da época nesses versos:


"Se é estéril, e fomes dá o cometa
Não fica no Brasil viva criatura,
Mas ensina do juízo a Escritura,
Cometa não o dar senão Trombeta.

Não creio que tais fomes nos prometa
Uma estrela barbada em tanta altura
Prometerá talvez, e porventura
Matar quatro saiões e imperialeta

Se viera o cometa por coroas,
Como presume muita gente tonta.
Não lhe ficará clérigo nem frade.

Mas ele vem buscar certas pessoas:
Os que roubam o mundo com a vergolha,
E os que à justiça faltam, e à verdade.


O outro cometa, de 1689, é o que inspirou alguns dos mais belos versos do nosso poeta satírico. Dentre eles, os seguintes:


"Que ande o mundo como anda,
E que ao som do seu desvelo
Uns bailam ao saltarelo,
E outros à sarabanda:
E que estando tudo à banda
Sendo eu um pobre poeta,
Que nestas coisas me meta
Sem ter licença de Apolo:
Será; pórem se sou tolo,
Efeitos são do cometa."


O cometa de 1689, invisível na Europa, foi descoberto em 1º de dezembro, durante a viagem marítima que o padre jesuíta Richaud empreendeu do Pará, no Brasil, a Pondichéry, na Índia. Richaud registrou-o até 8 de dezembro. Em 9 de dezembro, os padres jesuítas Beze e Comille, em Málaca, também registraram seu aparecimento. Suas observações, publicadas nos Anais da Academia de Ciência de Paris, relatam que o núcleo do cometa possuía um brilho equivalente ao de uma estrela de terceira a quarta magnitude e uma cauda muito curva de mais de 68º de extensão. Os últimos registros desse cometa, em 24 de dezembro, são obtidos por Struych nos diários dos navegantes que viajavam em navios holandeses.

Na literatura astronômica internacional é desconhecida sua observação na Bahia, registrada nos belos versos de Gregório e, o que é mais incrível: a valiosa notícia, talvez uma das mais completas que existe sobre este cometa no Brasil. Trata-se do Discurso astronômico sobre o estupendo e fatal cometa ou núncio pela Divina Providência enviado aos mortais, o qual foi visto a primeira vez a 6 de dezembro do ano 1689, ao romper da aurora, neste nosso horizonte oriental de Pernambuco, na altura austral de oito graus no signo de Escorpião.

Desse escrito existe um exemplar na Biblioteca Nacional de Lisboa, na Coleção Pombalina (Códice ms nº 484, de fl. 170 a 177vº). Existe também uma referência no catálogo impresso dos manuscritos da Biblioteca Eborense, em Portugal. Uma reprodução desse documento de grande valor astronômico foi reproduzido em 1911 na Revista do Instituto Archeologico e Geographico de Pernambuco. Apesar do fundo astrológico, é possível pela sua descrição reconstruir com precisão toda a trajetória do cometa, no período de 6 a 23 de dezembro, quando o cometa desapareceu nas constelações do Escorpião, Lobo, Centauro.

 

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