Os eclipses na literatura

Ronaldo Rogério de Freitas Mourão

Nas mais diversas culturas, os eclipses lunares sempre produziram grande medo e horror. Seu aparecimento era sinal de mau presságio entre os gregos, os bizantinos, os jamaicanos, os chineses e os turcos. Similar terror provocava entre os índios das Américas, assim como entre os africanos e australianos. A fobia aos eclipses era um sentimento universal, cujas causas devem estar, profundamente enraizadas na própria natureza e estrutura da mente humana. Os eclipses foram, como os cometas, associados à morte de reis e de grandes personalidades - como por exemplo, Heródoto, César, Henrique I da Inglaterra, assim como às grandes catástrofes, às pragas e aos terremotos.

Acreditou-se que, na Antigüidade, o medo decorria do fato de o povo desconhecer a causa do escurecimento. Todavia, este não é um argumento completamente satisfatório. Muitas culturas tem uma explicação, às vezes incorreta, mas continuam com pavor aos eclipses. Suas falsas idéias com freqüência evocam cenas de medo. A tradição islâmica associava os eclipses ao Dia do Julgamento. Os chineses associavam ao dragão devorador do Sol e da Lua, respectivamente o eclipse solar e lunar. De modo análogo, os maias acreditavam que, durante o eclipse lunar, o nosso satélite estava sendo devorado por um jaguar gigante que poderia vir à Terra para devorar os homens. Com estas explicações, o mais natural é que o povo acabasse temendo os eclipses.

A origem primária da fobia pelos eclipses está intimamente associada à idéia de desorganização da ordem natural do universo. O ciclo eterno dos céus é uma constante, uma harmonia, enquanto o eclipse lunar ou solar representa uma quebra desta harmonia celestial, talvez em virtude da indignação de um ser divino.

A mística do eclipse foi rompida desde o momento que se tornou possível prever a sua ocorrência. Era a substituição de um evento arbitrário e alarmante por um evento possível resultante de um ciclo natural. Na realidade a verdadeira causa envolve a sombra que ocorre num cenário sem ameaças.

O célebre jornalista e romancista norte-americano Samuel Langhorne Clemens, conhecido como Mark Twain, filho de sonhadores, quase visionário, acreditava ser um "misterioso e talvez sobrenatural visitante oriundo de outros lugares". Tendo nascido na Flórida, em 1835, previu a sua morte ao sugerir que ela deveria coincidir com o reaparecimento do cometa Halley, que já havia marcado o seu nascimento. De fato, Mark Twain faleceu em 1910, em Redding.

Na sua obra A Connecticut Yankee in King Arthur's Court (1889) - Um ianque na corte do Rei Artur -, o seu principal herói escapou de ser queimado vivo ao prever que o Sol desapareceria três minutos após o meio-dia, em 21 de julho de 529, como de fato ocorreu no romance. Para os menos avisados, esta data deveria ser um valor aleatório, escolhido à vontade pelo ficcionista. Na realidade, no dia 21 de julho de 529 um eclipse do Sol foi visível como anular numa estreita faixa que atravessou o Oceano Índico e terminou na Austrália. Por outro lado, no romance do escritor inglês Henry Rider Haggard (1856-1926), King Solomon's Mines (1885), traduzido como As Minas de Salomão por Eça de Queiroz, o seu principal personagem conseguiu livrar-se de morrer na caldeira fervente de uma tribo de selvagens africanos e ainda ficou muito rico pois recebeu o fabuloso tesouro salomônico como indenização. Neste romance Haggard produziu um dos maiores absurdos astronômicos, ao relatar o diálogo entre o barão Henrique Curtis e o capitão John, um marujo reformado:

"- Extraordinário - disse o capitão - Tem de ser registrado no livro de Bordo.

"Chamava ele Livro de Bordo a um almanaque do ano, com folhas brancas intercaladas, onde costumava assentar os episódios notáveis da nossa espantosa empresa".

"- Que dia é hoje? - perguntou ele, sentado-se, com o almanaque sobre o joelho".

"- 3 de Julho".

"O barão e eu voltáramos a examinar as dádivas de Tuala - quando, daí a instantes, o capitão, exclamou com os olhos no almanaque:"

"- é curioso! Amanhã, 4 de julho, há um eclipse total, visível em toda a África! Deve começar às duas e quarenta minutos... Bom terror vão ter os pretos!"

"Escassamente demos atenção àquela notícia; e como o capitão findara de escrever, preparámos-nos para partir para a grande dança porque o Sol já descia, e já ia fora um rumor de regimentos passando. Pelo prudente conselho de Infandós envergamos as cotas de malha - que achamos confortáveis e leves. A do barão, homem de forte estatura, vestia-o como uma pelica; a do capitão e a minha dançavam-nos sobre as costelas, com pregas pouco marciais."

"A Lua surgia, magnificamente clara, quando infandós apareceu, com todas as suas plumagens e armas de gala, acompanhado de vinte guerreiros, para nos escoltar a palácio. Afivelamos os revólveres à cinta, empunhamos as achas de guerra, e largamos - consideravelmente comovidos."

"No Terreiro, onde estivéramos de manhã, encontramos a mesma formidável parada de regimentos, perfazendo talvez vinte mil homens - mas formados de modo que entre cada companhia ficava um carreiro aberto "para as farejadoras de feiticeiros" (como nos foi explicando infandós). Não havia outra luz além da Lua, cheia e lustrosa, que punha longas fieiras de faíscas nos ferros altos das lanças. Daquela escura massa de homens, do luar, do silêncio, saía uma indefinível impressão de majestade e tristeza."

Reparemos que Haggard se refere a uma "Lua magnificamente clara", naturalmente uma Lua cheia. E aí está o absurdo, pois é impossível que, na véspera de um eclipse do Sol, ocorresse um plenilúnio.

Todavia, o desconhecimento astronômico do escritor inglês chega ao ponto de afirmar que o Sol manteve-se oculto por mais de uma hora, quando se sabe que a totalidade de um eclipse solar não atinge mais de sete minutos.

Assim, ao marchar com os chefes que iria apagar o Sol afirma:

"- Perfeitamente - conclui eu. - Pois o amanhã, depois do meio-dia, nós, homens das estrelas, apagaremos o Sol durante uma hora, espalharemos trevas sobre a Terra, e será o sinal de que Ignosi é o verdadeiro rei dos Cacuanas e que o povo deve tomar armas por ele. Será bastante este milagre?"

E, em seguida, ao relatar sua marcha antes da batalha escreveu:

"Durante mais de uma hora caminhamos, através da escuridão guiados por Infandós e pelos chefes - até que de novo surgiu, como um fino traço luminoso, a orla do Sol."

Um eclipse tão longo assim, só poderia ser um eclipse lunar. Mas o relato de Haggard não deixa dúvida, em vários momentos, de que se trata de um eclipse do Sol.

Um relato muito análogo aos anteriores é o do caricaturista belga Georges Rémi, mais conhecido sob o pseudônimo de Hergé, considerado como o pai da história em quadrinhos, cômico e criador do famoso Tintin. Em Le Temple du Soleil (1949), traduzido pela Editora Record com o título O Tempo do Sol (1970), um eclipse providencial permite salvar Tintin, Haddock e Girassol. Todos os três deveriam ser queimados numa fogueira, cujo fogo seria dado pelo Sol através de uma lente. O único privilégio concebido pelos incas era que as vítimas escolhessem o instante de sua morte. Na prisão, Tintin teve sua atenção atraída para um jornal que o seu cão Milu estava destruindo. Neste velho jornal havia a notícia de que um eclipse total do Sol deveria atravessar o Peru dezoito dias mais tarde. Ele escolhe para o seu sacrifício o instante do eclipse total. No momento crítico, Tintin faz um apelo ao Sol que começa a desaparecer até o instante da totalidade, quando o disco solar é totalmente encoberto pela Lua. O céu escurece, as estrelas surgem. A coroa solar torna-se visível. Neste momento, o chefe inca concorda em lhe dar perdão.

Ao contrário de Haggard, cuja duração atribuída ao eclipse do Sol e muito longa superior a uma hora, Hergé comete um engano - muito mais aceitável do que o do autor das Minas de Salomão - ao reduzir a seqüência entre o início do eclipse, quando a Lua começa a cobrir o Sol, e o fim, quando ela o deixa completamente livre. Na verdade, esse intervalo se estende por várias horas em oposição ao que parece na história de Hergé. Existe uma visível confusão entre a duração da totalidade, de alguns minutos, durante a qual a Lua oculta totalmente o disco solar, e toda a sucessão do evento desde a primeira "mordida" do disco solar até a última, quando o disco lunar deixa o Sol, intervalo que pode durar mais de uma hora.

Às vezes, o erro de Haggard tem sido atribuído ao romancista Eça de Queiróz que baseou sua tradução na primeira edição de 1885. Em virtude dos protestos públicos causados pelos vários absurdos astronômicos da versão original, Haggard foi compelido a revisá-la. Assim, as edições subseqüentes relatam um eclipse lunar. Ignorando tal alteração, Eça utilizou-se da primeira edição para traduzir a obra.

Ao comparar a versão portuguesa de Eça com as edições subsequentes, vários estudiosos têm sido levados a atribuir ao tradutor português o erro que na realidade provém de um desconhecimento astronômico elementar do escritor inglês. Parece que a versão cinematográfica desse romance ignorando este episódio empregou a versão original perpetuando o erro para um grande público.

A alteração feita por Haggard mostra um apreço à cultura astronômica. Nos tempos atuais existem poucos exemplos no qual o realismo astronômico tenha forçado revisões públicas de erros conceituais e de noções elementares de astronomia.

Estes relatos sobre eclipses foram sem dúvida inspirados na história de Colombo, na Jamaica, quando o terror provocado pelos eclipses induziu os nativos, que se recusavam a reabastecê-lo, a reconsiderar sua decisão, colaborando com a tripulação do descobridor das Américas.

Ao contrário dos relatos de Haggard, nas Minas do Rei Salomão, e de Hergé, no O Templo do Sol de Tintin, existem na literatura referências a descrições de eclipses de fato relacionados a fenômenos reais.

Nas obras de escritor inglês William Shakeaspeare(1564-1616), ocorrem com muita freqüência eclipses do Sol e da Lua, quase todos associados ao mau agouro. Esta concepção astrologia está muito bem definida nas palavras de Horácio, amigo fiel e confidente de Hamlet, logo no primeiro ato da peça Hamlet, Princípe da Dinamarca, quando o espectro do falecido rei aparecia nas alamedas do castelo:

"Minúscula partícula que basta para perturbar os olhos do entendimento! Na época mais gloriosa e florescente de Roma, pouco antes da queda do poderosíssimo Júlio, os túmulos ficaram vazios e os defuntos, envoltos nas mortalhas, vagavam pelas ruas de Roma, fazendo alarido e soltando sons confusos; também foram vistas estrelas com caudas de fogo, orvalhos de sangue, desastres no sol e o astro úmido, a cuja influência está sujeito o império de Netuno, padeceu de um eclipse, como se o dia do Juízo Final tivesse chegado. estes mesmos sinais precursores de trágicos acontecimentos, anunciadores de catástrofes e mensageiros dos fados, o céu e a terra manifestaram juntos a nossos climas e a nossos compatriotas."

Este comentário é uma alusão aos eclipses do ano de 1598, assim como ao eclipse de julho de 1600, associado à rebelião do Conde de Essex, chefe da Justiça da Inglaterra, de fevereiro do ano de 1601.

Em Otelo, o Mouro de Veneza, diante da tragédia, Otelo exclama:

"Oh! hora acabrunhadora! Parece-me que deveria agora haver um imenso eclipse do Sol e da Lua e que o globo apavorado deveria entre abrir-se diante desta desordem".

Outro sinal de mau presságio para os eclipses está assinalado na cena XIII, do ato terceiro da peça Antônio e Cleópatra, quando, em Alexandria, Antônio afirma:

"Ai! nossa lua terrestre foi agora eclipsada e só pressagia a queda de Antônio!"

No Rei Lear, Shakespeare faz referência a dois eclipses, assistidos durante a elaboração dessa peça: o eclipse total do Sol de 2 de outubro de l605 e o parcial da Lua de l7 de setembro do mesmo ano. A linha de totalidade do eclipse solar passou ao sul da Inglaterra. Esses dois fenômenos inspiraram o seguinte trecho do Rei Lear, em que o crédulo e imprudente Conde de Gloucester afirma:

"Estes últimos eclipses do Sol e da Lua nada nos pressagiam de bom; muito embora a ciência da Natureza possa explicá-los de tal e de tal maneira, ela mesma, não obstante, encontra-se flagelada pelos seus efeitos subseqüentes. O amor esfria, a amizade se dissolve, os irmãos se dividem; nas cidades, rebeliões; nos campos, discórdias; nos palácios, traição; e os laços entre filho e pai, rompidos. Esse vilão de mau sangue confirma e predição: aí está o filho contra o pai! O rei abandona a tendência da natureza: aí está o pai contra o filho! Já vimos os melhores anos da época em que vivemos: maquinações, perfídias, traições e todas as desordens ruinosas nos acompanharão inquietantemente até nossos túmulos. Descobre esse monstro, Edmundo. Não terás nada a perder; procede cautelosamente... E o nobre e leal Kent, banido! Honestidade foi o único crime que cometeu! é estranho."

Ao que responde Edmundo, filho bastardo de Gloucester - o mais adulador, cruel e luxurioso dos traidores - que, além de intrigante, conspira contra seu irmão Edgar, filho legítimo do Conde:

"Tal é a excelente loucura do mundo que, se nos encontramos de mal com a fortuna ( o que acontece freqüentemente por nossa própria culpa ), achamos que o Sol, a Lua e as estrelas são culpados de nossas desgraças; como se fôssemos vilões por necessidade, loucos por compulsão celeste; patifes, ladrões e traidores pelo predomínio das esferas; bêbados, embusteiros e adúlteros pela obediência forçada ao influxo planetário e como se só fizéssemos o mal por instigação divina! Admirável escapatória do homem femeeiro essa de colocar suas veleidades lúbricas sob a responsabilidade de uma estrela! Meu pai se uniu com minha mãe sob a cauda do Dragão e a Ursa Maior presidiu a meu nascimento; daí se segue que seja eu violento e libertino. Basta! Teria sido o que sou, se a mais virginal estrela do firmamento houvesse piscado, quando fui bastardeado."

A presença da astrologia nas peças e poemas de Shakespeare se justifica pelo fato de na época, a astronomia e a astrologia constituírem uma única ciência, à qual se dedicavam os mais eminentes astrônomos e cientistas do tempo. Por outro lado, não se deve esquecer que as peças shakespearianas compreendem mais de 2 mil anos da história da humanidade, durante os quais os sinais celestes foram sempre considerados uma advertência divina, aceita pela astrologia, crença permanente na mente humana desde a origem do mundo. Entretanto, os argumentos de Shakespeare contra a astrologia estiveram sempre presentes em suas obras, seja através do esperto Edmundo no Rei Lear, ou do lúcido Cássio, em Júlio Cesar:

"A culpa, meu caro Bruto, não é de nossas estrelas mas de nós mesmos, que consentimos em ser inferiores".

 

Publicado no Jornal do Commercio, Caderno Atualidades, 16 e 17 de março de 1997.

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